Caio Blois
Do UOL, no Rio de Janeiro (RJ)
25/04/2020 04h00
Lideranças de movimentos de rua que apoiaram Jair Bolsonaro nas eleições de 2018 e ganharam capital político ao lado do atual presidente veem a situação do mandatário ficar politicamente insustentável, após as acusações de Sergio Moro, ex-ministro da Justiça. A saída de Moro do governo amplia a cisão entre lava-jatistas e bolsonaristas, fato perceptível pelo discurso de representantes desses grupos.
Esses movimentos que foram às ruas exigir mudanças na política, durante os protestos que se espalharam pelo país em 2013, concordam integralmente com a Operação Lava-Jato, mas hoje divergem em relação ao governo federal. Enxergam desgaste na gestão de Bolsonaro e um "racha" na direita.
O ex-juiz, que se notabilizou pelo julgamento do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT) durante a Lava-Jato, pediu demissão após Bolsonaro interceder pela saída de Maurício Valeixo do cargo de diretor-geral da Polícia Federal. Moro acusou o mandatário de interferência política na PF.
"O que foi dito hoje, ipsis litteris, é uma clara interferência política não só na Polícia Federal, mas até no Supremo Tribunal Federal. O que ele [Moro] falou é gravíssimo, e se provado constitui crime de responsabilidade [de Bolsonaro]. A sequência de atos pode se constituir também crime de responsabilidade. O que aconteceu hoje [ontem] separa os mais radicais dos razoáveis, que estão dando vários passos para trás. Essas pessoas, sim, ficam agora absolutamente desiludidas. O apoio popular diminui, e o governo fica cada vez mais insustentável", opina Rogério Chequer, líder do movimento "Vem Pra Rua" e hoje filiado ao Partido Novo.
A desilusão com os rumos do bolsonarismo, entretanto, não é uma novidade para as lideranças do Movimento Brasil Livre (MBL), que já retiraram seu apoio ao governo Jair Bolsonaro em 2019. O vereador Fernando Holiday (Patriota-SP) vê o presidente como um traidor.
"Acredito que as declarações do [Sergio] Moro nos fazem ter, sem sobra de dúvida, a certeza de que Bolsonaro é o maior traidor que a direita poderia ter nos últimos tempos. As acusações do Moro nas declarações indicam crimes de responsabilidades. Não nos resta outra coisa a não ser averiguar e considerar o impeachment. A direita foi rachada de vez. Só vai restar apoio em uma bolha muito específica. Quem é contra a corrupção e achava que o governo poderia ajudar está decepcionado e considera o Bolsonaro um traidor. Traidor a gente trata como lixo", afirma.
Outro líder do MBL, o deputado estadual Arthur Do Val (Patriota-SP), o "Mamãe Falei", chamou o governo de "mal-intencionado". Ele lembrou que o movimento era liberal, e não apenas "anticorrupção", já que "todas as pessoas devem ser anticorrupção por prerrogativa".
Do Val acredita que Jair Bolsonaro só conseguirá sobreviver politicamente aproximando-se do centrão e, para isso, contrariará sua própria narrativa de desprendimento dos antigos personagens fisiológicos da política.
"Essa negociação de cargos já existe tem tempo. O corporativismo político é um problema comparável à corrupção. O Bolsonaro foi eleito para fazer algo diferente, e nesse momento faz o contrário. É o cúmulo se sentar para conversar com [Gilberto] Kassab (PSD), Valdemar da Costa Neto (PL) e Roberto Jefferson (PTB). Vejo isso como ameaça à democracia. No caso do Bolsonaro, como ele bateu de frente nas eleições, vai ser ainda mais custoso 'sentar no colo' dessa gente."
Carla Zambelli mantém apoio ao presidente
Uma das ativistas de maior notoriedade nos protestos, Carla Zambelli se tornou deputada federal de São Paulo pelo PSL, à época partido de Bolsonaro. A fundadora e líder do movimento "Nas Ruas" se mantém fiel ao atual presidente. Triste pela saída de Moro do governo, ela afirmou que seguirá como aliada do governo na Câmara dos Deputados.
"A situação como um todo me deixa muito triste. Mas não comentarei as declarações do Moro. Fico triste com a saída dele. Era uma pessoa extremamente importante para o governo. Um pilar do governo Bolsonaro. De todo jeito, com a saída dele, o governo tem que continuar. Como parlamentar da base do governo meu trabalho vai seguir", disse.
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